O sexto dedo
Um pequeno conto
Ao grande contista Francisco de Lugo
*
O professor chamou os nomes. Allan era o segundo da lista. Afastou a cadeira e se levantou. Sem querer, quase por acidente, acabou dando com a vista no sexto dígito de Rodrigo. Parecia uma ofensa olhar o sexto dígito, do mesmo modo que ofende olhar as pernas atrofiadas de um aleijado ou as órbitas vazadas de um cego ou a verruga na ponta do cotovelo de uma bela mulher. Era o tipo de coisa que ofende tanto àquele que é visto quanto ao que vê. Às vezes, a fim de esconder a deformidade, o menino botava a mão debaixo da camisa. Seria o bastante, caso fosse canhoto. O problema é que era destro, e o dedo extra brotava do canto da mão direita, colado ao mindinho.
Desviando rapidamente os olhos, Allan foi até a mesa do professor e recebeu a prova de química corrigida.
“Parabéns, meu jovem. Tiraste a maior nota da turma.”
“Poxa, professor, muito obrigado!”
Os colegas levantaram os pescoços, curiosos, tentando espiar o cabeçalho da prova de Allan, que voltou para a carteira de cabeça baixa. Ele procurava a todo custo não fixar a imagem de Rodrigo, mas apagá-lo, dissolvê-lo de sua frente; pois, se o olhasse, nem que fosse por um mísero segundo, acabaria se defrontando com o dedo. Sentou-se no terceiro lugar da segunda fileira, um pouco adiante do colega, livre da imagem do apêndice inútil. Pois, a bem da verdade, era isso mesmo: um apêndice inútil, disfuncional. Um errinho bobo de transcrição gênica que resultou numa projeção de tecido ósseo. Incapaz de qualquer movimento; molenga, tolo, obtuso, vulgar – o sexto dedo.
Soou a sirene da escola. Os estudantes pularam das cadeiras, chutaram-nas para longe. Alguns rapazes se aglomeraram em torno da carteira de Allan, a prova passando de mão em mão.
“Não se esqueçam de trazer os jalecos”, informou o professor, antes de sair pela porta. “Veremos alguns solventes na próxima aula.”
Um grande tumulto de vozes vinha do lado de fora da sala. Rodrigo ficou sentado em seu lugar, sozinho, pois não tinha amigos na escola. Tirou a lancheira de dentro da mochila e serviu-se dum sanduíche. Allan não ousava olhar para trás, receoso do que poderia encontrar ali. Nunca vira realmente o rosto de Rodrigo, tão apavorado era com a ideia do dedo. Podia crer que não fosse um simples rosto, mas outra aberração da natureza, do tipo que leva alguém a desenvolver um sexto dígito. Em pesadelo, concebeu a imagem de um menino com um terceiro olho, emergindo do centro da testa como um tumor. Fizera um baita esforço para se esquecer daquela imagem, mas toda vez que alguém fazia qualquer referência a Rodrigo, ele visualizava em sua mente o terceiro olho a lançar piscadelas.
“Tirou dez o safado!”, exclamou um dos rapazes, dando tapinhas nas costas de Allan.
“É um gênio da química esse aí.”
“O nosso Mendeleiev.”
“Me dá essa prova aqui!”, puxou o papel das mãos dos colegas e guardou-o na mochila. “Agora, falando sério, qual é a boa pra essa noite?”
“Cineminha.”
“E depois fliperama.”
“Tu vais?”
“Ora se vou”, então se lembrou de que havia marcado de sair com a namorada. “Posso levar a Vic?”
“Tu que sabes.”
Na hora da saída, Allan ainda chegou a ver, de esguelha, uma das mãos de Rodrigo sobre o encosto da cadeira. Conferiu rápido: cinco dedos. Era a mão esquerda.
***
Às seis, foram ao cinema, como haviam combinado: Allan, os três amigos, a namorada de um deles, e Vic. Depois partiram para o fliperama. Lúcio, o mais velho do bando, sugeriu que emendassem indo a uma festa na casa de um primo, mas Vic disse que precisava voltar antes das onze. Allan, um pouco triste por ver a noite terminar tão cedo, despediu-se dos rapazes e acompanhou-a até em casa.
“O que achaste da noite?”
“Foi divertida. Fazia tempo que eu não me divertia tanto assim”, respondeu Vic, fitando o céu negro acima dos postes de luz. “Achei que tu ficarias zangado por eu ter debandado.”
“E eu não debandei junto contigo?”
Chegaram a um pedaço mais escuro da rua. Só então Allan conseguiu ver algumas estrelas cintilando a oeste; o cinturão do Órion surgindo por detrás do telhado de uma casa. Lembrou-se, sabe-se lá por que mistério, do sexto dígito. Teve um leve espasmo, e sua mão se soltou da de Vic.
“O que foi?”
“Nada não. Foi só um arrepio.”
“Assim de repente?”
Pegou de novo na mão da garota, e seguiram quarteirão acima. Beijaram-se na frente da casa, na escadinha da varanda, e disseram os adeuses.
Allan morava a duas quadras da casa de Vic, num pequeno sobrado que pertenceu a seus avós antes de ser de seus pais. Ele abriu a porta da frente, pendurou as chaves no gancho e subiu as escadas. Um sutil ressonar vinha do quarto de seus pais. Na janela que dava para os fundos da casa, ao fim do corredor, viu os galhos da ameixeira arranharem o vidro. Havia qualquer vento lá fora que fazia todas as coisas sibilarem. Algo o incomodava de forma secreta, algo que parecia escavar no subterrâneo, sorrateiramente, aflorando em silêncio por debaixo da mais fina camada de pele. Sentiu uma comichão na lateral da mão direita, bem embaixo do dedo mínimo. Coçou o mais que pôde, mas a sensação era de que a pele iria se romper de repente, rasgando-se de dentro para fora, explodindo qual uma erupção cutânea, expelindo pus e sangue.
Deitou-se e tentou tirar tais pensamentos da cabeça, concentrando-se noutras imagens. Pensou no filme a que assistiram mais cedo, nas expressões de horror que Vic fazia sem perceber sempre que o assassino surgia em cena, em seu rosto sereno olhando para o céu no caminho de casa. Mas, então, sem querer, ele o viu, ali, bem diante de seu nariz, arrastando-se como um vermezinho pelo chão do quarto, dando voltas e mais voltas ao redor da cama, deixando um longo rastro de lesma por onde passava: o sexto dígito.
Acordou sem ar, tossindo como um afogado. Não se lembrava de ter pegado no sono. Lá fora já era quase dia, e uma réstia de luz cinza entrava pelo vão das cortinas. Allan foi à cozinha e tirou um cutelo da gaveta do armário, sem exigir explicações a si mesmo. Levou o objeto para o quarto e guardou-o na mochila.
***
“Allan.”
“Aqui”, levantou a mão e todos olharam.
Seus amigos também o observavam. A forma que segurava os joelhos e oscilava para frente e para trás, como um pêndulo. Seus olhos fitos e absortos. Os lábios que abriam e fechavam quase imperceptivelmente, sussurrando baixinho os versos de uma canção indolente. Sabiam que havia algo de muito errado. Ele não era o mesmo de ontem, de jeito nenhum.
“Ei, estás bem?”
“Sim, sim, estou sim.”
Voltou a cantarolar.
A professora desenhou o mapa da Europa no quadro.
“Esta é a França”, fez um X no território correspondente à França. “E aqui é a Normandia”, fez outro X, um pouco menor que o primeiro.
Allan abriu a mochila e tirou o objeto, embrulhado num saco de papel. Um bem-te-vi pousou no peitoril da janela, passeou os olhos pelo interior da sala, abanou as asas e partiu para longe. Alguém pigarreou na carteira de trás. Ele viu, de relance, o sexto dedo sobre a mesa de Rodrigo (aquela mão que deveria figurar num show de horrores). E viu também quando, do mais completo nada, o dedo se moveu – MOVEU! – muito discretamente, como se tivesse recebido um pequeno choque elétrico. Allan foi então engolido por uma onda subliminar, pelo mesmo pavor secreto da noite passada. Algo foi detonado dentro dele – a ânsia, a fúria! A fúria!
Num gesto brusco e automático, volteou o cutelo no ar e aterrou-o sobre o dedinho do rapaz, fatiando-o precisamente na base. O apêndice foi apartado violentamente do restante da mão, e um jorro escuro de sangue brotou da ferida.
Os outros estudantes se afastaram, horrorizados. Duas meninas desmaiaram e foram acudidas pelos colegas. No meio da sala, ficaram apenas Allan e Rodrigo. A professora correu com uma toalhinha de rosto, que usou para estancar a hemorragia. Allan olhava para Rodrigo, tomado de um assombro definitivo, pois era a primeira vez que de fato via o seu rosto. E não havia um terceiro olho, nem nada do tipo, como sempre imaginara. Em vez disso, deparou-se com um bonito rapaz, talvez o mais bonito que já vira em toda a vida. E sentiu por ele uma grande e inexplicável compaixão.
“Calma, calma”, disse a professora aos alunos que choravam, “ele está bem, ele vai sobreviver”, e apertou o pano ensopado com mais força ao ferimento.
Foi só então que Allan percebeu algo peculiar em sua própria mão. Finalmente a comichão havia cessado, restando nada mais que uma estranha incongruência. Virou a mão direita, com a lateral apontada para cima. Assustou-se com o que viu. Riu de si mesmo. Não podia acreditar naquilo. Tinha agora, ele mesmo, um sexto dedo.

